segunda-feira, 22 de março de 2010

Uma carta.

Escrevo-te e, me desculpa por ser de tal forma, como quem escreve a tudo que é passageiro, como um aceno, um adeus, um instante.
Talvez porque o sempre para mim, sempre foi uma palavra difícil de lhe dar. Prefiro o agora para sempre. E te acho tão assim, tão agora e hoje, que me pego, por vezes, pensando na essência dos instantes peregrinados nos teus olhos. E admiro, como pode ser tão de corpo e alma? Ao contrário do que acham, ser instante não é fácil, é preciso se desprender de tudo o que prende , ser tempestade, pele e veia. Que pulsa, PULSA, como Pulsa!
Ao mesmo tempo, precisa ter um olhar diferente para a vida, para as sensações. Precisa amar o tempo e como isso me parece contraditório. Amar o tempo? Se o amar já parece ser tão eterno, como pode ser também instante?
Escrevo-te, como quem olha num espelho. Não sentes também a energia das paredes e das ruas? O cigarro se esvaecendo nos dedos. O cigarro que o tempo é. A madrugada, as folhas que caem das árvores. Toda a natureza não percebe? Tudo reflete o tempestuoso tempo.
Que tragédia vos pôs por ordem? Que medo de dormir! Ele possui uma faca guardada no quarto, logo uma faca! Para encher de cor rubra o chão de piso de sua casa. Só assim, parará de pulsar aquele tempestuoso. Oh como foste má. Que patologia maligna. Oh Deuses!
E que obsessão pelo hoje. Desde criança, ficava horas admirando os relógios de todas as formas e não entendia como funcionava. Gostava de ver os relojoeiros que desmontavam e montavam, trocando peças, colocando bateria. Como um instante caberia ali? E poderia ser assim trocado e refeito e consertado? Porém cresceu e ao mesmo tempo ficou. Ele nunca era, sempre estava!
A mundanidade passou a ser seu vício. Quantas emissões de signos, quanta elegância! Não se achava elegante, mas sabia percebê-la, assim se tornava parte dela. Era a forma mais instante que conheceu, a forma mais tempo de tudo. Vivia para contemplar tudo quanto fosse mundano. O amor nas suas variadas facetas. Percebeu que o amor nascia a cada noite, a cada cama, a cada copo, a cada corpo. E tudo era como se fosse nada, digo, tudo sempre era diferente. E se divertia. Sabe, ele realmente tinha jeito. Como sabia dançar ao som daquela música.
Porém até o instante passa. E como o mesmo, também nasceu predestinado para uma tragédia. Que missão é essa meus Deuses? Que missão? Repetia indignado, contando os segundos e olhando para o relógio e contemplando sua faca. Porque tremo ao ver tais objetos?
Passava horas assistindo filmes baseados nas obras de Almodóvar, adorava a cor que passava na tela. Seus olhos se enchiam de sede e lhe vinha de imediato à cabeça sua faca guardada. Porque tinha tanta complacência para com a morte, mas tremia ao pensar na sua?
Resolveu mudar de vida. Casar e ser pai. Não poderia mais extrema ser a mudança. Vivia naturalmente, como um ser predestinado para a vida eterna. Esqueceu-se da morte e que ela existia, esqueceu-se das veias e do sangue que pulsava, ignorou por completo a voz da noite que sussurrava em seu ouvido. – Me recuso a sentir! Repetia mil vezes quando exausto se entregava ao cansaço.
Mas como todo ser predestinado não poderia ser diferente. Numa noite fria, nossa ela estava muito sarcástica, tudo possuía cheiro e o que é pior: cheiro de vinho. Me embebedei, lambuzei-me e dancei, dancei. Foi quando ele veio e revelou tudo que eu sempre quis entender. Demônio. Vi-la deitada ao meu lado, como que dormindo para a morte. Como a morte estava próxima. É, ele transou com a morte!
E novamente lembrou-se da faca. Levantou-se e passou alguns minutos contemplando-a, minutos que no seu tempo transformaram-se em horas. Foi até a mesinha ao lado e acendeu um cigarro. Demônio! Insistiu que deveria ser logo. Como ele queria passar mais alguns instante ali, contemplando o instante chamado Morte.
Deveria ser assim como troca de todas as respostas que buscava. É, só a morte lhe daria mais tempo. Como que roubado de outrem para si. Só assim, teria mais instantes!
E como já era previsto...
Matei a Morte!

Mayara Libânia
22.03.2010 às 02h38min:35

2 comentários:

  1. A vida é mágica vida com sabedoria, paz.

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  2. Comentários pra depois. Leitura... Leitura.
    Quero saber vários detalhes...

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